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Quando preservar ainda é o melhor negócio

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Toda a vez que o assunto é Patrimônio Histórico e suas variáveis, com certeza as pessoas tendem a ‘torcer o nariz’ e fica fácil de entender o porquê, pois além do nosso analfabetismo cultural crônico, há uma tendência a se ‘abandonar’ o imóvel que esteja protegido por algum órgão de preservação quando não se dá a este um reuso adequado, a ponto de se brincar com a palavra tombamento e levar o sentido ao pé da letra, de coisas que tombam por si só, seja pela ação do homem ou pelas intempéries do tempo, e não pelo sentido real que se quer aqui abordar, que é o de “um ato administrativo realizado pelo Poder Público com o objetivo de preservar, por intermédio da aplicação de legislação específica, bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo que venham a ser destruídos ou descaracterizados”. Interessante que se leia mais a respeito, na excelente publicação ‘Tombamento e Participação Popular’, do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), do município de São Paulo.

Toda essa introdução para aproveitar o momento em que acontece a reintegração de posse de um exemplar inestimável do imaginário coletivo do operariado da Mooca e seus descendentes: o Edifício Creche Marina Crespi / Associação Montessori do Brasil / Fundação Ninho-Jardim Condessa Marina Regoli Crespi, localizado nas esquinas da Rua João Antonio de Oliveira e Rua dos Trilhos, e que abrigou até o final de 2009 uma creche para cerca de 120 crianças, assistidas pela entidade católica Associação Santo Agostinho (ASA). De propriedade da família Crespi, o imóvel foi fechado após a saída da entidade para depois ser endereço certo de invasão de movimentos de moradia e sem teto. Nem é preciso dizer que foram mais de três anos, desde junho de 2010, quando soubemos do ocorrido e do perigo que o imóvel, desprotegido, corria naquele instante, a ponto de solicitarmos o tombamento emergencial ao DPH, o que logo foi acatado pelo valioso órgão de preservação, sabedor que era e é da relevância do local para a história das famílias mooquenses e de toda a cidade.

Conhecida como ‘Nido’ (Ninho em italiano) Marina Crespi, o edifício foi construído para ser a creche do Cotonifício Crespi, importante indústria têxtil do bairro, cujos edifícios fabris, alguns ainda remanescentes, também foram projetados pelo mesmo profissional, o italiano Giovanni Batista Bianchi. Construído em 1936, o mesmo passou a funcionar em 1937, por iniciativa da benemérita Condessa que foi buscar na Itália a planta e o funcionamento, segundo registros levantados pelo arquiteto Alexandre Franco Martins.

O que importa ficar aqui registrado para o momento é a necessidade de se levar mais a sério os exemplares ainda ‘vivos’ da região, a exemplo dos atualmente fechados Moinho Minetti Gamba e Teatro Arthur Azevedo, só para citar duas jóias raras de nossa sofrida paisagem tão sem poesia, cada uma com sua relevância histórica e importância, ambas tombadas também pelo patrimônio histórico e que seguem ainda indefinidas. Sem contar o Memorial do Imigrante que perdeu o bondinho e sua alma: os registros dos inúmeros imigrantes que vieram em busca de um lugar melhor para construírem suas vidas e que passaram pela antiga hospedaria.
A pergunta que fica agora é: o que irá acontecer com a creche depois de esvaziada?

Elizabeth Florido é jornalista, moradora da Mooca, e luta pela defesa do patrimônio histórico do bairro, tendo sido uma das responsáveis pelo tombamento do Cotonifício Crespi, do Moinho Minetti Gamba e da Creche Marina Crespi.

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